Nanotecnologia
Nanotecnologia chega à indústria (O Estado de São Paulo - Vida & - 19/11/2004)

Projetos brasileiros em várias áreas começam a sair dos laboratórios de pesquisa para se transformarem em produtos.
Renato Cruz

Nanotecnologia é coisa para o futuro, certo? Nem tanto. Projetos nascidos em laboratórios brasileiros já começam a ser trabalhados pela indústria, com o objetivo de se tornarem produtos. Um exemplo é uma embalagem que aumenta a durabilidade de alimentos e bebidas, desenvolvida pelo professor Fernando Galembeck, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), num projeto em parceria com a Rhodia-Ster. A nanotecnologia trabalha no nível molecular, manipulando materiais com dimensões de 100 nanômetros ou menos. Um nanômetro equivale a um milionésimo de milímetro - um fio de cabelo tem 30 mil nanômetros.


Galembeck pesquisa nanocompósitos de polímeros. Os polímeros são grandes moléculas formadas por unidades químicas simples, chamadas monômeros. Os plásticos, em sua maioria, são polímeros. A patente que permite a embalagem que aumenta a duração de alimentos foi depositada em 2001. No ano passado, foi internalizada pela Rhodia-Ster, para ser transformada em produto. "A nanotecnologia não é uma indústria em si", explicou Galembeck. "Mas participa de todo tipo de indústria." O pesquisador tem outra patente, depositada em 2003, e uma terceira, em que a tecnologia está sendo empregada num projeto com as Indústrias Químicas Taubaté.


POTENCIAL
A possibilidade de aplicação da nanotecnologia é imensa. "Hoje, se a data de validade de um queijo diz 2 de janeiro, quando chega o dia 3 jogamos fora", exemplificou Merheg Cachum, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). "Isso gera perda de bilhões por ano. Com a nanotecnologia, a embalagem pode, além de conservar o produto por mais tempo, avisar quando ele efetivamente já não está adequado ao consumo." Entre 5 e 8 de junho de 2005, será realizado em São Paulo o evento Nanotec, para tratar de nanotecnologia aplicada à indústria.


Ao setor de plástico, somam-se outros que podem ser beneficiados pela nanotecnologia, como saúde, indústria têxtil, eletrônica e indústria automobilística. Em pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisa Industrial (Inpi), feita em junho, Galembeck, da Unicamp, identificou 231 patentes relacionadas à nanotecnologia. Somente 19 eram de autoria de brasileiros. Para sua surpresa, descobriu que o maior patenteador de nanotecnologia no País era a L'Oreal, de cosméticos, com 19 registros.


O professor Luiz Nunes de Oliveira, pró-reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), disse que há ainda um número relativamente pequeno de resultados que podem ser apresentados pela universidade brasileira na área de nanotecnologia. Mas citou alguns projetos nascidos na USP. Nas biomédicas, foi criada uma bactéria que produz plástico biodegradável. Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), foi criado um tomate transgênico com alto teor protéico. "Ele pode produzir até medicamentos e já foi licenciado para a indústria", afirmou Oliveira. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo apóia mais de 125 pequenas empresas com projetos em nanotecnologia.


A nanotecnologia pode ser uma resposta à necessidade brasileira de produzir componentes eletrônicos no País. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) tinha registro de três fábricas de semicondutores no País. Existe uma quarta, que trabalha com nanotecnologia e se chama Dispositivos Semicondutores Discretos, em Betim (MG), criada pelo professor Wagner Nunes Rodrigues, da Universidade Federal de Minas Gerais. "Responderemos às necessidades do setor aeroespacial, para criar o satélite brasileiro", disse Rodrigues.

 

 



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